A 9a. Expedição da Gaia foi realizada com muito êxito. Fizemos o encontro dos participantes paulistas em Rio Verde do MS no dia 24/6. No mesmo dia, enquanto esperávamos alguns participantes, curtimos um pouco a cachoeira que tem pertinho da cidade. Saímos todos no dia 25 para Cáceres (onde encontramos o casal que faltava do grupo e que vinham de Belem, via Brasilia). No dia seguinte seguimos para Ji-Parana, já em Rondônia. Nesta cidade fizemos a manutenção das 3 Savanas (troca de óleo, graxa, etc) no revendedor Mitsubishi local e assistimos ao jogo do Brasil. Depois seguimos para Porto Velho, onde dormimos em um dos melhores hotéis da cidade, mas que deixa muito a desejar. Dali seguiríamos para Brasiléia, já perto da fronteira Brasil/Bolívia. No entanto, depois que passamos uma balsa e logo na hora que o asfalto melhorou, a Toyota do Marcelo apresentou um entupimento na alimentação de diesel. Mudamos o plano e decidimos parar em Rio Branco. Um excelente mecânico de bombas injetoras resolveu o problema em meia hora e tivemos a oportunidade de conhecer a capital do Acre, Rio Branco, o que foi uma grata surpresa.
Rio Branco e uma cidade bonita, limpa, bem arrumada e com o centro antigo e o porto fluvial quase todo revitalizado. Gostamos muito e também encontramos bons hotéis e restaurantes. De Rio Branco seguimos para Brasiléia para os tramites alfandegários de saída, mas não nos avisaram que tínhamos que pegar um carimbo de saída nos passaportes na Polícia Federal. Seguimos para Assis Brasil, onde se construiu uma bela ponte, que une nada com coisa nenhuma, e descobrimos que teríamos que voltar os 115 km para pegar o tal carimbo. Uma conversa com o pessoal muito solicito da polícia federal e eu e Marcelo pudemos voltar com os passaportes de todo o grupo para carimbar. Isso nos atrasou 3 horas.
Os funcionários da imigração peruana e da aduana foram muito mal educados e incompetentes. Depois dos tramites (imigração e aduana) em Iñapari, já estava escuro e decidimos acampar na frente da única pensão do lugar. Como todos tinham barracas de teto não foi problema acampar, usamos os banheiros da pensão e cozinhamos nosso jantar na beira do Rio Acre. Somente os Hermanos Martinez dormiram na pensão.
A floresta Amazônica Peruana e a beleza da cordilheira dos Andes.
No dia 30/6, seguimos de Iñapari para Puerto Maldonado. Este percurso é feito pela amazônia peruana e a estrada está em obras. Em Puerto Maldonado aproveitamos para trocar comprar a moeda local, “Soles”, e acampamos em um local bem acolhedor. De Puerto Maldonado seguimos para Quincemil (onde ficamos sabendo da derrota do Brasil), uma “cidade de primeira”.
Novamente, o percurso foi todo pela Amazônia peruana, a 150 m de altitude. Um dos carros chegou com o pneu furado e nós o consertamos pois o borracheiro local não sabia nem o que era um pneu sem câmara. Um outro estava com o pneu murcho pela manhã, mais um conserto com o remendo rápido para pneus sem câmara. Acampamos na frente da prefeitura local e “los hermanos” se alojaram em um dos quartos da pensão local. De Quincemil seguimos para Cusco. Esse trajeto é incrível porque se passa da amazônia peruana para a cordilheira. A subida é lenta e gradual e muitíssimo bonita. Passamos por Marcapata, já na cordilheira, e chegamos a mais de 4.000 m de altitude. Nesse ponto tivemos que usar o cilindro de oxigênio que estava levando, pois ao levantar o galão de diesel fiquei completamente tonto. Com 10 minutos de puro O2 eu já estava novo em folha. O caminho para Cusco depois de Marcapapta é meio monótono. O Peru está construindo a Rodovia Transoceânica para ligar o Acre a um dos seus portos e este trecho está cheio de desvios. Chegamos a Cusco na noite do dia 2/7, depois de parar em um posto onde encontramos um grupo de caminhoneiros de Passo Fundo que estavam levando equipamentos para a construção da estrada. Alguns membros do nosso grupo (que não tomaram o O2) chegaram a Cusco com mal da altura (tontura, enjôo, vomito, etc).
Cusco e Machu Picchu: suas belezas, curiosidades e encantamentos.
Em Cusco nos alojamos no Hotel Ruinas, que tem instalações excelentes e nos tratou muito bem. No dia seguinte fomos para Macchu Pichu em um passeio organizado pela Agencia Ruína, foi ótimo e muito bem organizado, passamos o dia visitando as ruínas do povo Quechua e nos encantando com a beleza, o misticismo e as histórias da região. Em Cusco tivemos temperaturas bem baixas a noite, chegando a 2o C pela manhã. No dia seguinte ao passeio, a maior parte dos participantes aproveitou para limpar os carros pela manhã e à tarde fazer um passeio a pé, visitando as ruínas mais próximas a Cusco. Já no terceiro dia fizemos um passeio ao Valle Sagrado com os nossos carros, parando nas ruínas de Pisac, na cidade de Pisac e indo até as ruínas de Ollantaitanbo. Depois da caminhada nas ruínas de Pisac fizemos uma rodada de O2 para recuperar o fôlego.
No dia 6/7 saímos de Cusco em direção sul, por asfalto, para chegar em Puno e seguir para Copacabana na Bolívia. No dia anterior havia ocorrido uma greve geral de camponeses e a estrada estava fechada com pedras em alguns trechos, o que nos obrigava a dirigir com muito cuidado. Em certa altura do caminho havia um bloqueio e tivemos que tomar um caminho de terra alternativo para chegar a Puno. Isso incluiu o cruzamento de um rio e muita poeira. Chegamos a Puno e contornamos a cidade por uma avenida externa, tomando o rumo da fronteira com a Bolívia, para chegar a Copacabana. Na saída do Peru fomos extorquidos pelos policiais e pelos militares peruanos. Os funcionários de fronteira bolivianos, ao contrário dos peruanos, nos trataram muito bem, ficando inclusive além do horário para nos atender. Seguimos para um hotel em Copacabana à beira do Lago Titicaca. O frio era intenso, o hotel não tinha calefação nos quartos e a água quente era uma questão de sorte.
Cruzando a Bolívia do Lago Titicaca ao Deserto do Salar.
Em Copacabana fizemos um passeio de barco à Ilha do Sol para visitar umas ruínas incas e a “fonte da Juventude”. À noite jantamos todos juntos em um restaurante local que servia trutas. No dia seguinte saímos cedo para tentar chegar a Sucre. Logo na saída tivemos que pagar um pedágio municipal e logo depois passamos nas balsas, que levam um ou dois carros por vez, dependendo do humor do balseiro. Passamos por La Paz, onde abastecemos, e seguimos para Oruro. De Oruro pegamos a estrada para Potosi (para chegar em Sucre é preciso passar por Potosi). Na parada antes de Oruro havíamos constatado que um dos carros estava com um pneu furado e tivemos que consertá-lo. Não foi difícil, mas perdemos um bom tempo. O trecho de Oruro a Potosi é belíssimo e passa por grandes altitudes. Acabamos chegando a Potosi no escuro por volta das 19 horas. Depois de consultar o hotel El Libertador, confirmando a possibilidade de alojamento, decidimos abortar a ida a Sucre e ficar em Potosi.
Em Potosi aproveitamos para visitar o museu Casa de la Moneda, que é muito bem organizado e bonito. Havia a possibilidade de visitar as minas de prata, mas nenhuma pessoa do grupo se interessou pelo passeio, preferindo visitar a cidade e comer um bom bife de Llama.
No dia 10/7 seguimos de Potosi para Uyuni, agora por estrada de terra com muita poeira. O caminho também é lindíssimo, com o detalhe que há um pedágio (que chamamos de “taxa de off-road”). A chegada na cidade de Uyuni se deu por volta das 16 horas e nos alojamos no Hotel Los Girasoles, que é um verdadeiro “oásis” no deserto. Aproveitamos para fazer os tramites de saída da Bolívia (com validez de três dias), porque o dia seguinte seria feriado na cidade, e para combinar o passeio ao Salar de Uyuni com uma agência local.
No dia seguinte bem cedo saímos em três Toyotas Land Cruiser em direção ao cemitério dos trens e a Ilha do Pescado, ou Incahuasi (casa do Inca), no meio do Salar de Uyuni. O passeio foi muito bem organizado pela agencia Licancabur e incluía um almoço em pleno salar. Retornamos a cidade para jantar e descansar para a travessia do dia seguinte.
A travessia do Salar de Uyuni (Bolívia) para o Deserto do Atacama (região norte do Chile)
A travessia de Uyuni para San Pedro do Atacama foi o ponto alto de nossa Expedição. Tentamos sair bem cedo, mas alguns carros não pegava devido à baixa temperatura da noite (-15 oC), pois seus motores não possuem velas de pré-aquecimento. Com um pouco de paciência e alguns carros rebocados conseguimos sair por volta das 10 horas. Alguns carros ainda não conseguiam desenvolver a plena capacidade de rotação porque o diesel fica muito denso nestas temperaturas e os respectivos motores não estavam dimensionados para estas condições. Deslocamos-nos lentamente no começo, curtindo as miragens na superfície do salar, para depois andar em velocidade normal. Depois de uma parada para comer chegamos ao ponto onde se avistava o Vulcão Ollagüe, que faz a fronteira com o Chile. Dali tomamos uma trilha cheia de pedras em direção às
diversas lagunas do caminho. Quando passou das 16 horas começamos a procurar um local para acampar e encontramos um lugar abrigado na Laguna Hedionda (ao contrário do nome, o local é lindo e cheio de flamingos). Armamos as barracas ao lado da construção de uma pousada, onde havia a possibilidade de usar banheiros. Los hermanos decidiram alugar um quarto com duas camas (10 US$ por pessoa) e cozinhamos o jantar enquanto havia sol.
Quando escureceu a temperatura começou a baixar rapidamente e, por volta das 20 horas, já estávamos todos dentro das barracas e dentro de tudo quanto é coberta que tínhamos. Muitos não conseguiram dormir com o frio intenso que fez aquela noite. A umidade da respiração condensava na forma de gelo no teto interno das barracas. Só fomos recuperar a nossa temperatura normal pela manhã, depois que o Sol saiu de trás das montanhas.
Tomamos o nosso café da manhã, desarmamos o acampamento e começamos a tentar a ligar os carros. Aos poucos fomos conseguindo ligá-los um por um e pudemos seguir em direção à Laguna Colorada, onde pagamos (30 bolivianos por pessoa, algo como menos de US$ 4,00) para entrar no parque nacional que existe ali no caminho da fronteira. Também passamos pela aduana boliviana, que está localizada no escritório de uma companhia de mineração a 5.400 m de altitude. Nesta aduana também fomos bem atendidos. De lá seguimos para a Laguna Verde e a fronteira, onde fomos novamente muito bem atendidos pelo funcionário boliviano da imigração. Logo depois atingimos o asfalto que levava, em descida, até San Pedro do Atacama e a aduana chilena.
Chegamos a San Pedro no final do dia 13/7 e paramos na repartição de fronteira (imigração, aduana e fiscalização sanitária). Na aduana tivemos o azar de chegar depois de dois ônibus e perdemos um tempão. Mas, seguimos para Calama tranquilamente (100 km) por uma excelente estrada asfaltada e conseguimos nos alojar em um hotel muito confortável e com boa calefação.
A região do Deserto do Atacama e suas belas paisagens.
Em Calama aproveitamos a manhã para trocar dinheiro, comprar mantimentos e abastecer os carros para o trajeto até o El Tatio, onde veríamos os geisers. De Calama seguimos primeiro por asfalto para Chiu-chiu e depois para Toconce, onde uma placa indicava LINZOR e EL TATIO.
Tomamos este caminho e tivemos uma grande atividade off-road durante todo o trajeto. O caminho é bem estreito e vai pela encosta da montanha com algumas passagens que requerem muita calma e um pouco de perícia. Chegamos a passar por um fundo de vale que estava com uma camada de gelo, porém não foi necessário usar as correntes. Chegamos a El Tatio no horário do por do Sol e a paisagem estava maravilhosa, com os geisers jogando água para cima e fervendo. O local estava deserto e pudemos curtir tudo isso sem a presença incomoda de uma multidão de turistas (o que ocorre no período da manhã). Seguimos para San Pedro, já no escuro, pela estrada de terra e com muita poeira. Mantínhamos uma boa distancia entre os carros e nos comunicávamos pelo rádio. O Marcelo e a Monika foram na frente para procurar alojamento para todos. Paramos no escuro, na entrada das termas de Puritama, para curtir o céu estrelado. A baixa umidade, a altitude e a ausência de iluminação proporcionam uma visão privilegiada do céu estrelado. Nossa assessora especial para assuntos de astronomia (a Maiara) nos ajudou a identificar as constelações. Seguimos para San Pedro e, pelo rádio, acertamos com o Marcelo a questão do alojamento.
Em San Pedro ficamos “semi-acampados” em uma pousada bem simples, porém com água quente para o banho e um local para fazermos o nosso café da manhã. Pela manhã o grupo aproveitou para conhecer o museu e a cidade e a tarde fomos visitar as dunas do Vale de Marte (ou vale da morte).
Depois fomos para o Valle de la Luna curtir o por do Sol, junto com uma multidão enorme de turistas que subiu uma duna imensa e se postou encima de um morro para apreciar o espetáculo. Realmente vale a pena subir esta duna e observar o Lincancabur e as outras montanhas ao longe. À noite tivemos um jantar de confraternização em um restaurante local.
Retorno ao Brasil
No dia seguinte fizemos os tramites de saída do Chile logo que a aduana abriu, às 8 horas, e iniciamos a volta, subindo novamente em direção à cordilheira e o Paso Jama. A subida é longa e não adianta se apressar, pois o carro não passa de 60 70 km/h. Na aduana argentina os tramites foram relativamente simples e pudemos seguir para Jujuy. Um casal se despediu do grupo neste ponto, porque precisavam se adiantar na volta ao Brasil. No caminho ainda passamos por um imenso salar e várias montanhas multicoloridas. Chegamos a Jujuy relativamente cedo, 16 horas, e decidimos seguir para Salta, já que não poderíamos trocar o óleo dos carros naquele dia (domingo), como planejado. Tomamos uma estrada para Salta que passa por dentro de uma mata fechada. Foi uma transição incrível, do deserto para uma mata exuberante cheia de flores e bromélias. Chegamos a Salta ainda de dia, conseguimos nos alojar em um bom hotel e comer uma boa carne argentina.
Na segunda-feira de manhã em Salta levamos os carros a um local para troca de óleo, almoçamos e seguimos para J Gonzáles, a 220 km de Salta. Nesta cidade nos alojamos em um hotel para começar o estirão da volta no dia seguinte. De J. Gonzáles até Resistência há uma reta de 700 km.
Três carros saíram as 5 da madrugada pois queriam chegar mais cedo ao Brasil (ainda faltavam quase 1500 km para a fronteira). O restante do grupo saiu às 8 horas em direção a Resistencia e Corrientes. Um dos carros seguiu adiante em Corrientes e nós rodamos até Ituzaingo, onde pretendíamos acampar. No entanto, o camping estava fechado e nos alojamos em um confortável hotel (o único) na cidade. De lá seguimos para a fronteira, em Puerto Iguazú, e depois para Campo Mourão, no Paraná. De Campo Mourão foi só seguir para casa.
No total rodamos em cinco países (Brasil, Peru, Bolívia, Chile e Argentina) cerca de 11.000 km, em estradas de asfalto, terra, areia, pedra, caminhos e trilhas. Andamos a altitudes que variaram de 50 a 5.400 m e tivemos temperaturas de -20 a +37 oC. A Expedição transcorreu sem problemas mecânicos em nenhum dos carros (3 Mitsubishi Savana, 2 Troller, 1 Land Rover Defender 110 e uma camionete Toyota Bandeirante cabine dupla) a não ser três pneus furados e a dificuldade de pegar no frio. Não tivemos nenhum acidente ou percalço. Como em outras expedições, foi preciso fazer alguns ajustes na programação para adequá-la às condições das estradas e ao cansaço ou entusiasmo do grupo.
por Marco-A. De Paoli
Essa viagem teve apoio das empresas: