Colunistas
Marco Aurélio De Paoli
O Garimpeiro

O “Garimpeiro” é um personagem que conhecemos quando estivemos a primeira vez na Chapada da Diamantina, mas ele existe em qualquer região de garimpo no Brasil. Este tipo de homem nos deixou lembranças e deu o que pensar. Andando pelas ruas de Andaraí, aquela figura com os olhos brilhando e perdidos no horizonte, imaginando a pedra que iria encontrar. A pedra que lhe traria fortuna, ficaria famoso e rico de uma hora para outra. O seu olhar nos deixou impressionados. É um tipo de homem que vive um sonho 24 horas por dia, sete dias por semana, o ano todo. O sonho é o diamante que vai encontrar um dia.

Também conhecemos um ex-garimpeiro, “Malhado”, que havia renunciado ao sonho e abraçado a vida real de guia para turistas. Mudou de vida para sustentar a família, dizia. Mas ele também não perdia a sua oportunidade de sonhar, voltando aos seus campos de garimpo sempre que a ausência de turistas o permitia. Esse maravilhoso mundo alimentado por sonhos. Malhado também tinha o olhar atento e sempre pronto para nos mostrar as árvores no meio da mata. Ele identificava cada uma delas, contava as suas histórias e estórias. O Malhado nos ensinou aos poucos a adquirir o “olhar do garimpeiro”. Olhar para o mato e distinguir o vôo de um tucano. Olhar para o rio e distinguir as suas cores diferenciadas, as pedras de Mundubi, os lagartos, a areia do fundo, os escorpiões, os marimbondos, a água morna e convidativa. Há tanta coisa escondida por trás daquelas pedras, que só o “olhar do garimpeiro” consegue distingui-las.

Flor no Jalapão: Foto: Marco A-De Paoli
Hoje, o nosso olhar também é assim. Com ele é possível ver um gavião voando com uma cobra pendurada nas garras sobre um congestionamento na Rodovia dos Bandeirantes. Ver a Lua cheia despontando no horizonte entre os prédios. Ver um beija-flor no jardim, do lado de fora do prédio onde trabalhamos. Só aqueles que possuem este olhar são capazes de passar horas no topo de uma montanha contemplando um pôr dos Sol, um nascer da Lua, as estrelas, tanta coisa.

Com esse olhar podemos ver e sonhar. Sonhar com a próxima viagem, com a próxima Expedição e com os próximos achados. As pedras preciosas que garimparemos nesses caminhos serão as cachoeiras, os pássaros, os rios, as flores à beira da estrada (“Moa, Marcelo; vamos parar para mais uma foto, essa flor eu ainda não conhecia”), as pessoas, os amigos e as lembranças. Parar em uma estrada poeirenta para um mergulho nas águas frescas de um rio no calor escaldante do Sertão é uma jóia de valor inestimável.

Como o Mago, nós vamos enchendo os nossos baús com essas gemas preciosas. Esse baú insaciável que sempre vai querer mais, uma cachoeira escondida no lado oeste da Serra da Canastra, um glaciar distante no sul do Chile, um vulcão nos recônditos dos Andes, uma orquídea na Serra dos Orgãos, uma bromélia na Serra do Caparaó, um pôr do Sol no Pico do Papagaio, um pedaço de mata no Mato Grosso ou no Piauí,.... Quando é que vamos saciá-lo? Daqui a muitos e muitos anos, quando o baú estiver transbordando e quando o olhar do garimpeiro estiver embaciado e já não for possível distinguir o vôo das aves e nem as cores do pôr do Sol.
Mas, ainda há muito tempo, junte-se a nós, venha adquirir o olhar do garimpeiro realizar estes sonhos.

por Marco Aurélio De Paoli

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