Colunistas
Marco Aurélio De Paoli
Marinsyama no gami

amagami significa espírito da montanha e Marinsyama no gami seria: o espírito da montanha chamada Marins. Isso quem me informou foi o “Jãopones”, mas o personagem desta crônica não é o Jão, é o Marinsyama no gami. Nós o conhecemos em uma reunião do Jipe Clube de Campinas, no Gordão Auto Lanches. Um japonês baixinho, idade acima dos 50, com uma Toyota longa e um monte de revistas de “trekking”debaixo do braço. Aliás, ele vem na reunião do JCC vestido como se fosse começar a escalar uma montanha naquela hora. Contou do seu sítio no pé dos Marins, mostrou as fotos e nos convidou para conhecer o seu paraíso. Obviamente que ele não precisou insistir, já estávamos marcando a data antes da “Ber” trazer o sanduíche e a primeira cerveja. Na semana seguinte ele apareceu com os mapas e a programação detalhada, com horário determinado para tudo (depois descobrimos que ele já havia sido chefe de escoteiros).
Ajuntamos uma turma e fomos conhecer o Marins, o Marinzinho, o Itaguaré e os outros morros que ele batizou quanto abriu as trilhas de caminhada por aquelas bandas. Na primeira visita reconhecemos o terreno e conhecemos as cachoeiras. Ele ia na frente com a sua “longa”e nós atrás com as tres “curtas”. Uma hora paramos no meio do mato e ele mostrou uma bifurcação, “ai corta caminho, mas estrada muito ruim, muita erosão”. Imagina só, com isso ele assanhou a nossa vontade de fazer uma trilha e, foi por ali mesmo que voltamos no dia seguinte.

Combinamos outra visita em um fim de semana longo, agora daria para fazer o reconhecimento das trilhas que ficam nos extremos da “travessia Marins-Itaguaré”, que ele mesmo havia aberto duas décadas atrás. No dia combinado tomamos de novo a estrada e voltamos ao “paraíso”. Já no primeiro dia subimos o Marinzinho, primeiro com as Toyotas até onde deu. Ou melhor, até onde atolei em um facão que engoliu a roda dianteira esquerda e a traseira direita, bem na beira de uma pirambeira de uns 400 m. Depois seguimos a pé. Foi aí que descobrimos que o nosso guia era o próprio Yamagami. Saiu à frente, ágil, falante, mostrando a paisagem e apontando ao longe os morros e as cidades. “Vejam lá: “Pedura Redonda, redonda mesmo.”


No dia seguinte nos acordou as 6:00 horas, tomamos café e pegamos as Toyotas para chegar ao começo da trilha. O pico do Marins nos esperava. De novo, lá ia o Yamagami, saltitando pelas pedras e indicando o caminho da trilha que ele mesmo havia aberto. Depois de uma longa caminhada e uma escalada leve pudemos conquistar o Marins e vislumbrar a grandiosa paisagem que nos esperava. Apreciamos a paisagem e recarregamos as baterias. Enquanto o “Exorcista” se encostava na pedra e tirava um cochilo, nosso Yamagami saltitava pelas pedras e contava que havia aberto aquela trilha há 25 anos atrás. No dia seguinte nos acordou de novo as 6:00 horas e fomos para o começo da trilha que sobe o Itaguaré, uma trilha sombreada, subindo pelo meio da mata. Saindo da mata nos deparamos com um paredão de pedra; “é por aqui” explicou o Yamagami. Subimos até um platô e vimos o pico do Itaguaré meio coberto pelas nuvens. Mais uma subida, uma escalada leve e estávamos no pico, no cume. O Yamagami saltitou de pedra em pedra até atingir a pedra mais alta, onde poucos se aventuraram. Depois de comer e tirar fotos, descemos até onde estavam os carros pela mesma trilha de, aproximadamente, 7,5 km e fomos para uma cachoeira tomar um bom banho gelado. Compramos trutas e nos deliciamos com um sashimi regado a sakê.

No dia seguinte pegamos a estrada de volta para casa, mas a impressão que ficou é que, havíamos conhecido um verdadeiro “espírito da montanha”, uma pessoa que conhece aquelas montanhas, abriu as trilhas para atingir os seus cumes e agora sente prazer em mostrá-las para todos que se dispõem a subir as suas encostas e pedras.

Volta