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A Cordilheira
Não sei quando foi que me apaixonei por ela. Pode ter sido nos meus sonhos de infância, aquela montanha alta inatingível que sonhava subir, mas não existia. Pode ter sido na viagem ao Peru em 1983, quando fomos a primeira vez a Cuzco e ficávamos olhando as montanhas em volta da cidade e no Vale Sagrado. Deve ter sido na volta que a paixão começou a ficar mais forte. Depois que o avião decolou em Lima parecia que não ia mais parar de subir. Nós quatro nas janelas, olhando para baixo aquelas montanhas, os picos gelados, o Lago Titicaca e mais montanhas. Parecia um mar de montanhas.
Muito depois veio uma viagem de avião para o Chile. Eu sempre na janelinha, embaçando o vidro com a minha respiração. Como se fosse uma criança curiosa viajando pela primeira vez de avião. Primeiro aquela planura da Patagônia, depois as primeiras montanhas como se a terra estivesse enrugando. Mais para a frente é como se o chão começasse a subir em direção ao avião. Aparecem as montanhas, majestosas, vestidas de todas as cores e com todas as suas jóias reluzentes. Foi nesse dia que eu pensei que, um dia, teria que passar por ali de modo a tocá-las e a sentir o seu perfume e o seu hálito frio.
Demorou mais alguns anos e fizemos a primeira expedição para Ushuaia. Já no percurso para o sul, no meio da Patagônia, começamos a vê-las ao longe, na linha do horizonte. Na volta, tomando o sentido norte, as encontramos em Torres del Paine, as seguimos mais para o norte, as cruzamos no Lanin e as cruzamos de novo no Paso Cristo Redentor descendo para Mendonza. Afinal, tinha chegado nelas, as tinha tocado e sentido o seu aperto de mão. Tínhamos sentido a falta de ar a mais de 4000 m de altitude. Dá um aperto no coração lembrar daquela subida e descida impressionantes. A primeira vez a gente nunca esquece, só sente saudades.
Decidimos conhecê-las de novo, mais ao norte, no deserto. De novo cruzar a planura dessa nossa América até encontrar as primeiras montanhas. Subir de novo, mais alto, mais seco, mais frio, mais deslumbrante, mais colorido e menos oxigênio para respirar. San Antonio de los Cobres apareceu no meio da noite como um oásis no meio de um deserto. Campos de pouso de discos voadores apareciam a cada curva da estrada. Onde estavam eles? Virada do século no meio do deserto, coisa de beber duas garrafas de champanhe no gargalo e nem sentir a tontura de tantas estrelas que havia no céu. Subir mais, mais frio, menos ar, mais beleza, mais espetáculos a oferecer; os gêiseres do El Tatio. Ninguém se satisfaz, é a natureza humana. Tínhamos que subir mais, subir a encosta do Lincancabur até onde a Toyota conseguisse subir. Continuar a pé a até onde nossos pulmões conseguissem respirar, até onde desse para ver todo o Salar. Só a Tércia chegou lá, eu fiquei no meio do caminho. A paisagem daquele canto da cordilheira nunca mais saiu da minha lembrança.
Descemos a cordilheira em direção ao Pacífico com uma sensação de estar deixando alguém para trás. Foi preciso retomá-la, subir de novo, percorrer o altiplano andino, sentir o fedor dos geiseres de enxofre e se deliciar com a beleza das montanhas verdes de cobre. Chegar à antiga capital do império inca, estacionar na praça depois de percorrer os vales que levam a Cuzco e descansar. Rever Machu Pichu em meio à chuva. Que sensação, estacionar o nosso carro na Praça de Armas para uma foto.
Seguimos o altiplano até a cidade mais alta, Potosi, e o maior Salar, Uyuni. A colina no meio do salar parece uma ilha suspensa no meio do céu. Tudo lá encima da Cordilheira, a mais de 3900 m de altura, não é perto do céu, é o céu. Depois disso voltamos.
Passa o tempo. Vem o impulso, não agüento mais de saudades daquelas montanhas. Caramba, vamos de novo, vamos caminhar no meio delas e nos embriagar com as paisagens. Vamos a Torres del Paine, vamos nos meter por aquelas trilhas a pé, porque só a pé é que se chega onde o paraíso começa. Fomos só nós três, eu a Tércia e a Tiazinha. Não há como contar, tem que ir lá para ver. Aquele diamante está lá, incrustado na Cordilheira. Depois ficou ainda aquela atração magnética que nos fez virar a esquerda na encruzilhada da ruta 40 e nos levou a Chalten. Levou-nos a caminhar um dia inteiro debaixo da chuva gelada e do vento para chegar ao pé do Fitzroy, bater pique e voltar. Depois as deixamos para traz de novo para voltar para casa.
Mais uma vez tínhamos que voltar, caramba aquelas montanhas estão lá e a gente aqui, tão longe ! Vamos de novo, vamos percorrê-las de novo. Fomos procurar o lugar onde elas começam, lá no km zero da Panamericana, lá no começo da Carretera Austral. Fomos nos fartar com aquelas paisagens, de novo. Fomos e voltamos, de novo!
Não ficou por ai. Houve outras vezes, em outros lugares. Entrar na selva peruana e subir a cordilheira foi uma sensação indescritível, coisa de louco. De novo para cima, para o frio, para o vento, para a falta de oxigênio, para a beleza inebriante dessas montanhas. Rever o Valle Sagrado a bordo da Marylin. Voltar a estacionar em Cuzco o mesmo carro que coloco na garagem de casa todos os dias. Rever o Titicaca e o altiplano, velhos conhecidos, velhas paixões. Rever Uyuni, redescobrir o maior salar do mundo. Cruzar o desconhecido por dois dias e quase congelar ao lado da Hedionda. Rever o Lincancabur ... E voltar para casa.
Não teve jeito, tivemos que voltar de novo. Tem sempre uma coisa nova para descobrir. Tem sempre um cantinho dela que ainda não conhecemos e que vale a pena visitar. Ela está lá, como uma sereia cantando para atrair os marinheiros ela nos atrai para os seus vales e picos. Há sempre um novo caminho para atingir esses pontos desconhecidos. Cada vez mais alto, cada vez mais deserto, cada vez mais lindo. São montanhas multicoloridas, multiformes, multimaravilhas. O Socompa e o Lullaillaico foram visitados. A cidade fantasma de La Casualidad nos fascinou e nos recebeu com seu silencio acolhedor. Não há discos voadores ou fantasmas, só o vento e o silêncio. Os salares agora eram todos multicoloridos, como as fantasias das escolas de samba, e diferentes pois eram silenciosos. Somente se escutava o barulho do vento e o ranger dos sapatos ou dos pneus nas pedras ou no sal. Não sei ainda até hoje o que me deixa tonto, a altitude ou a beleza da paisagem. Voltar sempre deixa um gostinho de “quero mais”.
Ia esquecendo a fauna da Cordilheira. Elas estão sempre lá, as LLamas, as Vicunhas e as Alpacas. Tem os Zorros ariscos e os mansinhos, tem lebres e viscachas, há roedores pequenos e aves de todos os tamanhos. E tem ainda milhares de flamingos nas lagunas salgadas escondidas por trás dos vulcões, acesos ou apagados. Há muita vida, onde não parece haver nada.
Ainda vamos voltar outras vezes. Enquanto ela estiver lá e nós aqui vamos querer revê-la e conhecer cada um dos seus cantos mais escondidos e mais belos. Mas o prazer maior não é esse, o prazer maior é poder compartilhar isso tudo com outras pessoas que também admirem a Natureza em todas as suas formas.
Marco-A. De Paoli
Campinas, 20/6/2007
Volta
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